{"id":13410,"date":"2022-06-13T18:38:41","date_gmt":"2022-06-13T21:38:41","guid":{"rendered":"https:\/\/ocaa.org.br\/?p=13410"},"modified":"2022-06-14T17:50:03","modified_gmt":"2022-06-14T20:50:03","slug":"para-alem-de-ideias-importadas-a-bioeconomia-deve-servir-as-vozes-da-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ocaa.org.br\/en\/para-alem-de-ideias-importadas-a-bioeconomia-deve-servir-as-vozes-da-amazonia\/","title":{"rendered":"\u201cPara al\u00e9m de ideias importadas, a bioeconomia deve servir \u00e0s vozes da Amaz\u00f4nia\u201d"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/abs\/pii\/S0921800922001100#\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>O artigo completo pode ser acessado aqui mediante contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 plataforma.<\/em><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A urg\u00eancia em consolidar o entendimento de uma bioeconomia da Amaz\u00f4nia que garanta prote\u00e7\u00e3o ambiental, justi\u00e7a social e modelos econ\u00f4micos sustent\u00e1veis e pr\u00f3speros para a regi\u00e3o \u00e9 destacada por pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amaz\u00f4nia) em <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">publica\u00e7\u00e3o<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> na revista cient\u00edfica Ecological Economics nesta sexta, 10. Num esfor\u00e7o que considera complexidades territoriais, culturas e conhecimentos ancestrais, o grupo prop\u00f5e quatro princ\u00edpios orientadores para uma bioeconomia na regi\u00e3o que envolva vozes e ideias amaz\u00f4nidas em um processo coletivo \u201cdebaixo para cima\u201d. S\u00e3o eles:<\/span><\/p>\n<ol>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400;\">Desmatamento zero<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400;\">Diversifica\u00e7\u00e3o dos m\u00e9todos de produ\u00e7\u00e3o em resposta ao sistema de monocultura<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400;\">Fortalecimento de pr\u00e1ticas milenares amaz\u00f4nidas<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400;\">Reparti\u00e7\u00e3o justa dos benef\u00edcios<\/span><\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O conceito da bioeconomia ainda n\u00e3o tem uma defini\u00e7\u00e3o \u00fanica para a Amaz\u00f4nia e circula entre diferentes contextos, de organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e de pequenos produtores ao poder p\u00fablico, do setor financeiro, de multinacionais do agroneg\u00f3cio e da tecnologia a associa\u00e7\u00f5es de com\u00e9rcio internacional. No centro deste debate est\u00e1 a floresta amaz\u00f4nica, o potencial econ\u00f4mico de sua sociobiodiversidade, que coloca em pauta a conserva\u00e7\u00e3o ambiental, al\u00e9m de seus servi\u00e7os ecossist\u00eamicos, que regulam o clima do planeta.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A abordagem dos pesquisadores se soma \u00e0 discuss\u00e3o com a proposta de uma bioeconomia da Amaz\u00f4nia que direcione os projetos na regi\u00e3o a n\u00e3o mais reproduzir l\u00f3gicas excludentes de marginaliza\u00e7\u00e3o e de empobrecimento da popula\u00e7\u00e3o local.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cSe a gente continuar com uma escala de atividade predat\u00f3ria, mesmo que embasada numa economia de produto natural, no caso do a\u00e7a\u00ed ou de outras commodities oriundas da Amaz\u00f4nia, se n\u00e3o tomarmos cuidado, a perda acelerada de processos ecol\u00f3gicos no bioma, somada \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, levar\u00e1 a um potencial ponto de inflex\u00e3o na Amaz\u00f4nia. Ent\u00e3o, a ideia \u00e9 que a bioeconomia seja um vetor para reduzir e n\u00e3o acelerar esse cen\u00e1rio, colaborando com a prote\u00e7\u00e3o da biodiversidade, dos povos origin\u00e1rios e com o combate \u00e0 crise clim\u00e1tica global\u201d, comenta Patr\u00edcia Pinho, diretora adjunta de Pesquisa no IPAM e uma das autoras do artigo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A \u201ca\u00e7a\u00edza\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 lembrada como evid\u00eancia do n\u00e3o funcionamento da importa\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas de monocultivo para o ch\u00e3o da floresta: s\u00e3o as \u201carmadilhas da bioeconomia de produtos florestais\u201d. Com crescente demanda no mercado internacional &#8211; segundo o texto, exporta\u00e7\u00f5es cresceram 15.000% na \u00faltima d\u00e9cada -, a produ\u00e7\u00e3o do a\u00e7a\u00ed costuma ser vista como caso de sucesso da bioeconomia amaz\u00f4nica, mas traz consequ\u00eancias negativas para o ecossistema local e para as popula\u00e7\u00f5es da regi\u00e3o. A expans\u00e3o do<\/span><a href=\"https:\/\/ipam.org.br\/garimpo-na-amazonia-o-coracao-da-floresta-e-suas-veias-impactados\/\"><span style=\"font-weight: 400;\"> garimpo ilegal<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, de planta\u00e7\u00f5es de soja e de pastagens por <\/span><a href=\"https:\/\/ipam.org.br\/desmatamento-na-amazonia-cresceu-566-sob-governo-bolsonaro\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">terras griladas<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> tamb\u00e9m amea\u00e7am a soberania de territ\u00f3rios ind\u00edgenas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cS\u00e3o atividades que beneficiam poucas pessoas e trazem grand\u00edssimos impactos socioambientais para muitas. Uma maior rentabilidade n\u00e3o se reflete, necessariamente, em melhores condi\u00e7\u00f5es de vida\u201d, afirma Daniel Bergamo, pesquisador no IPAM, primeiro autor do artigo. \u201cTem-se que ir al\u00e9m do produto em si. \u00c9 necess\u00e1rio entender o imenso patrim\u00f4nio da sociobiodiversidade que emerge das realidades locais para saber como atrelar pr\u00e1ticas econ\u00f4micas \u00e0quele contexto, considerando que em alguns locais a bioeconomia j\u00e1 existe h\u00e1 muito tempo e j\u00e1 funciona de uma certa forma\u201d, diz.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um exemplo do antagonismo da bioeconomia \u00e9 citado no escrito: a realiza\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea, em 2021, na capital Bel\u00e9m (PA), do Encontro Amaz\u00f4nico da Sociobiodiversidade, no qual participaram popula\u00e7\u00f5es tradicionais e movimentos locais com uma perspectiva ecossocial, e do F\u00f3rum Mundial da Bioeconomia, em que estiveram grupos nacionais e internacionais pensando o mercado para a bioeconomia da Amaz\u00f4nia. No primeiro, surgiram questionamentos, pela organiza\u00e7\u00e3o do evento, sobre os tipos de bioeconomia discutidos no segundo, alegando n\u00e3o serem compat\u00edveis com os interesses da popula\u00e7\u00e3o local, ressalta um trecho do artigo.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tamb\u00e9m autora, a pesquisadora no IPAM Olivia Zerbini acrescenta: &#8220;A falta de uma defini\u00e7\u00e3o clara e de um debate ao redor do que \u00e9 uma bioeconomia justa, sustent\u00e1vel, inclusiva e respons\u00e1vel para a Amaz\u00f4nia traz, junto com os desafios, a grande oportunidade de haver uma constru\u00e7\u00e3o coletiva de um modelo que fa\u00e7a sentido a quem mais importa: os habitantes da regi\u00e3o e, principalmente, as pessoas que ir\u00e3o atuar diretamente nessa bioeconomia&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em busca de converg\u00eancias, pesquisadores alertam que a bioeconomia da Amaz\u00f4nia n\u00e3o alcan\u00e7ar\u00e1 seu potencial, tampouco ser\u00e1 suficiente para superar desafios sociais e ecol\u00f3gicos, caso se mantenham vis\u00f5es tidas como dominantes de pa\u00edses desenvolvidos sobre o assunto, que em sua maioria ocupam o hemisf\u00e9rio norte global. Abordagens como a \u201cbiotecnologia\u201d, centrada no uso de alta tecnologia, na produtividade industrial e no crescimento econ\u00f4mico para inser\u00e7\u00e3o de produtos florestais ao mercado, tendem a deixar de lado a realidade das desigualdades sociais na regi\u00e3o amaz\u00f4nica, bem como a prote\u00e7\u00e3o da floresta e dos direitos de suas popula\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cNa identifica\u00e7\u00e3o das iniciativas que est\u00e3o debaixo do guarda-chuva da bioeconomia, h\u00e1 estrat\u00e9gias e interesses diferentes. Existem v\u00e1rias defini\u00e7\u00f5es, a maioria importadas, que n\u00e3o s\u00e3o suficientes. Sugerimos, no artigo, princ\u00edpios orientadores que sustentariam uma bioeconomia amaz\u00f4nica: o que se prop\u00f5e \u00e9 um processo de escuta com os diversos setores sociais da Amaz\u00f4nia no atual processo de constru\u00e7\u00e3o do conceito. Para al\u00e9m de ideias importadas, a bioeconomia deve ouvir e servir as diversas vozes da Amaz\u00f4nia\u201d, diz Bergamo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em uma breve an\u00e1lise hist\u00f3rica, o pesquisador ressalta aspectos do texto que discutem a influ\u00eancia do processo colonizador em pr\u00e1ticas de mercado, como a substitui\u00e7\u00e3o da biodiversidade pela monocultura, bem como em culturas e modos de viver. \u201cPercebemos a bioeconomia amaz\u00f4nica como uma oportunidade de superar o legado colonial que, historicamente, alienou conhecimentos ancestrais e tradicionais na Amaz\u00f4nia e na Am\u00e9rica Latina como um todo, trazendo desigualdades. \u00c9 necess\u00e1rio criar esse conjunto de valores e crit\u00e9rios, que idealmente resulte em um modelo econ\u00f4mico adaptado \u00e0 regi\u00e3o, sabendo das microrregi\u00f5es dentro do bioma, cada uma com suas peculiaridades\u201d, comenta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A partir de processos participativos de escuta e que envolvam as pessoas nas tomadas de decis\u00e3o, a bioeconomia para a Amaz\u00f4nia, defendem os pesquisadores, n\u00e3o deveria ser guiada somente por expectativas de mercado externas \u00e0 regi\u00e3o ou por modelos predat\u00f3rios, e sim por um motivador principal: a prosperidade econ\u00f4mica e o bem-estar das e dos amaz\u00f4nidas, respeitando seus anseios, seus modos de vida e de manejo tradicional da terra, que <\/span><a href=\"https:\/\/ipam.org.br\/imagens-de-satelite-comprovam-que-terras-indigenas-sao-as-areas-mais-preservadas-do-brasil-nas-ultimas-decadas\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">vem mantendo<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> o bioma em p\u00e9 de maneira milenar e ancestral. <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O artigo completo pode ser acessado aqui mediante contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 plataforma. 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